O que é ser rico?

Por Age! Comunicação | 27 de março de 2015

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Talvez não seja necessariamente o que você acredita que é

Falar sobre dinheiro sempre é uma coisa divertida. A maioria dos que têm bastante jura que dinheiro não traz felicidade. Os que não têm podem até acreditar, mas gostariam de trocar de posição com quem tem mais só para poderem experimentar a coisa por conta própria.

O tema da riqueza sempre parece nunca sair de moda. Foi o estouro que o livro de Piketty causou ano passado, a discussão das diferenças entre “pobres” e “ricos”, o desejo de implantação de impostos sobre fortunas que volta e meia ressurge no noticiário político.

Tudo isso encobre o fato de que é muito mais difícil definir o que exatamente é um rico, ou uma fortuna, do que apenas falar do assunto. Mesmo definições como os “1% mais ricos” escondem uma variedade de definições: são os 1% que ganham melhor? Os que possuem mais patrimônio? Pela segunda opção, como se calcular tal patrimônio? Afinal, é extremamente diferente dizer que você possui um imóvel que vale um milhão de reais do que efetivamente receber um milhão de reais pela venda de seu imóvel (como muita gente percebe após pagar corretores, impostos e arcar com os meses de imóvel desocupado até conseguir vender).

Mais difícil ainda é chegar em um valor específico. Um milhão realmente é um número grande e parece um bom “alvo” para um sonho. Se você procura um imóvel novo em São Paulo ou Rio de Janeiro, para ficar nos casos mais óbvios, depois do aumento de preços dos últimos anos, deve ter chego à conclusão de que não se fazem mais milhões como antigamente (pessoalmente, toda vez que quero me sentir pobre, começo a olhar o preço dos anúncios de imóveis por aí).

Para quem está endividado, ter zero reais no banco é uma fortuna. José Mujica, ex-presidente do Uruguai, ficou famoso por viver e dizer ser muito feliz com uma quantia baixa de dinheiro. Nas conversas por aí, e até algumas propostas de lei, vemos valores serem jogados meio sem explicação, 2 milhões, 5 milhões… Números redondos que ocupam nossa mente quando paramos para pensar em quem pode se referir ao seu patrimônio como “fortuna”.

Para uma tarefa como essa, sempre é bom começar de um lugar concreto. Peguei então a lista dos salários dos ministros do STF. Por quê? Teoricamente, nenhum funcionário público pode ganhar mais que eles. Em valores líquidos, o maior salário é de R$ 36.919. O menor, R$ 31.217. Para fazer uma conta básica, resolvi pegar o salário de R$ 34.344 do ministro José Antonio Dias Toffoli. Primeiro, porque ele está no meio do caminho entre os dois pontos. E, segundo, porque a mídia adora falar sobre ele.
Para a conta ficar simples, multipliquei R$ 34.000 por 12, para chegar mais ou menos a quanto é preciso ganhar por ano para ter um salário como o de nosso ministro. Cheguei a R$ 408.000.

Indo ao site do tesouro direto, considerei o título do Tesouro IPCA, com juros semestrais e vencimento em 2050, que hoje paga 6,46% ao ano. Para ganhar R$ 480.000 por ano com esse tipo de rendimento, é preciso ter R$ 6.315.790 investidos. Isso sem contar os impostos. Para receber esse valor limpo, você precisaria de algo mais perto de R$ 7.300.000 aplicados nesse tipo de título.

Esse é o valor, senhoras e senhores, de quanto vale o capital intelectual de um profissional com tal salário. Os anos de educação, carreira e assim por diante que equivalem a um salário líquido de R$ 34.000 equivalem a R$ 7.300.000 no banco* (ver nota no final do texto). Isso sem muita margem de segurança nem espaço para problemas no caminho. Seria, então, um valor da linha de baixo do que é “ter uma fortuna”, se para você ter uma fortuna é ganhar o mesmo que um ministro sem precisar trabalhar.

A maioria dos empreeendedores que eu conheço pensa em dinheiro como um meio para um fim, alguns como um “modo de manter o placar”, como disse Donald Trump. Ainda assim, muitos sonham com o valor de que precisariam para terem um ganho X ou Y. Outros ainda se usam de tais números para definir fronteiras entre ricos e pobres.

Se for para definir de alguma forma, precisamos começar de algum lugar. Talvez, aliás, se pensássemos em todos os funcionários, não só em termos salariais, mas em quanto “valem” dessa forma, daríamos mais importância ao nosso próprio dinheiro. Talvez, pudéssemos até parar de dar tanto valor à fortuna alheia.

*Para esse exemplo, fiz várias simplificações. Peguei títulos indexados à inflação para me livrar de toda a discussão do valor do dinheiro no tempo e do risco, mas ninguém disse que o índice usado reflete corretamente o mundo. Desconsiderei custos de transação e outras taxas, e arredondei tudo, pois o exercício todo foi feito na calculadora do meu celular e minha proposta era mais provar um ponto do que chegar a um valor exato. Se você for pensar em aposentadoria, também considerei que você vai morrer até 2050. Se não for o seu caso, seria preciso pensar no custo de reinvestir esse valor. Sinta-se livre para fazer as próprias contas e me mandar as suas ideias.

Autor: Fábio Zugman



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